Origens


A Costa e a sua Região


    A Costa engloba duas povoações assim chamadas, a de Cima, e a de Baixo, e pertence à freguesia de Maceira e ao concelho de Leiria. Estes limites naturais do seu horizonte influenciaram a Etnografia, o cancioneiro e a cultura da sua gente.

    Terra trabalhosa de vinho, azeite, milho e pinhal, do seu amanho e cuidar, bem como da pastorícia no passado, tiraram através dos tempos forma de vida os seus moradores. Mas a partilha dos maninhos públicos fez com que a pastorícia desaparecesse, dando lugar a uma pequena agricultura, às artes e ofícios e ao incremento industrial.

    O passado dos costenses mergulha em raízes pré-históricas. Contudo, são evidentes os sinais da ocupação romana. O topónimo “Maceira” provirá do latim “Matianetta” (terra de macieiras), que assim apelidaram os romanos este local; e foi ele que deu o nome ao orago da sua matriz: “Nossa Senhora de maceira” actualmente dita “da Luz”.

    No entanto, o crescimento da região é mais notório a partir do século XIII, sob a influência religiosa do mosteiro de Santa cruz de Coimbra e a obrigação de fregueses de Santo Estêvão, de Leiria. Daqui se desmembrou em 1517, sendo elevado à condição de freguesia de maceira a cujo aro a Costa pertence. Os seus arredores são de uma belezas naturais e monumentais invulgares. A Igreja Matriz é manuelina a única do concelho de Leiria. Os Santuários de Nossa Senhora da Barroquinha, na barroca ao lado da matriz, e o de Santo Amaro, no alto do monte em frente, são a não esquecer.

    O viridente Vale da Ribeira, que leva daí à costa e por onde corre a ribeira da Fonte do Rei, é rico em culturas, tradições e lendas, e ainda há menos de meio século aí laboraram muitas azenhas e lagares de azeite.

    A dureza do trabalho, o espírito religioso, os hábitos comunitários e a toponímia espelham-se na sua riqueza cultural e originaram um melódico e grave “Cancioneiro de Entre Mar e Serra”, rico de tradições. Os seus povos tinham hábitos e leis comunitárias, de que são resquício ainda hoje as prestações de trabalho “a merecer” (entreajuda). Tudo em casa era feito na base da economia e aproveitando o meio ambiente e os materiais existentes: a pedra, o barro e a madeira, na construção da casa “rabuda”; a lã, o linho e depois o algodão na confecção do trajo; a broa, os produtos da terra, o azeite e a carne de porco na alimentação, que era frugal e constava de três refeições principais, almoço, jantar e ceia.

    Cada povoação tinha a sua capela própria e festejava-lhe o Padroeiro com decoração das ruas e actos religiosos, confecção de andores com bolos de “palma ou ferradura” e ainda “ofertas” armadas em tabuleiros com papéis recortados e rufos, ou relvas, que as moças levavam à cabeça, com oferendas dispostas em cima de toalhas bordadas.

    Os serões eram preenchidos com recitativos e contos, lendas, romances, adivinhas, ditados, flagrantes da vida e outras expressões da cultura popular transmitida oralmente.

    As festas familiares mais salientes eram os casamentos com o seu simbólico cerimonial e fartura de comida, os baptizados e a matança do porco.

    Em caso de doença chamava-se o “Barbeiro” avençado, que era pessoa entendida na cura de achaques, mazelas, entorses e fracturas num tempo em que não havia próximos nem médicos, nem hospital ou clínica. Os remédios eram aviados na Botica da vila ou da cidade. Para assistir aos partos, havia as “curiosas” e as “aparadeiras” que, com alguma manipulação, recitativos e rezas por uma boa hora, lá davam conta do recado.

    A morte era muito sentida e seguida de luto carregado de acordo com o grau consanguínio do finado. Os funerais eram feitos em ombros para o cemitério da freguesia, com dolente cerimonial de “despedida”, encomendação e paragem no “Cruzeiro do Poisio” limite geográfico do lugar.

    Cantavam-se as Janeiras e os Reis em tempo próprio, enquanto que o Entrudo tinha pouco significado. Ao contrário, a Quaresma era tempo de muito respeito e recato: cantavam-se as “Almas Santas”, à noite, amentando as almas do purgatório. A meio dela ,a mocidade fazia uma das peças mais desbragadas da aldeia a “Serração da Velha”… Também as procissões dos Passos, feitas no domingo der Lázaro, eram dignas de ver-se, mormente a diurna, pois havia duas nocturnas, com distante iluminação das colinas circundantes.

    No domingo de Páscoa recebia-se em casa a “visita do Senhor” e as ruas eram juncadas com passadeiras de verdura que iam de porta a porta, usando a abórtega, o rosmaninho e o alecrim. No domingo de Pascoela, oito dias depois, ia-se esperar a sesta para o campo e aí era representado o “Auto da Espera da Sesta”, uma peça original da Costa e muito ao gosto dos autos vicentinos.

    Enternecedores e alegres eram os “Círios” que se faziam à tarde nos domingos de Maio, com as crianças em desfile, cantando e levando cruzes enfeitadas com flores naturais e dádivas, e também cestinhas com oferendas de primícias da terra, para a Igreja Paroquial.

    Na Quinta Feira de Ascensão, ou “da Espiga”, grupos da mocidade iam para os campos “apanhar a espiga” colhendo um raminho de flores silvestres e a espiga de pragana, para ofertar `pessoa da sua estima.

    Os Santos Populares eram festejados de véspera com vistosa fogueira na rua, descantes e brincadeiras.

    No dia de Todos os Santos, ou dos “Santoros”, 1 de Novembro, as crianças pediam o “pão por Deus” de porta a porta e guardavam-no em saquinhas que levavam. Os rapazes e raparigas, pediam a “merecida”, que era a “merendeira doce” maior oferta da dona da casa a quem lhe ajudara a descamisar o milho.

    Grande parte dos rapazes da Costa emigravam  ainda novos para o Brasil com o fim de angariar um pecúlio que lhes permitisse, alguns anos depois, voltar à sua terra, construir a sua casa e casar-se. Mais tarde, esse sentido migratório orientou-se para a Europa mormente para França. A ideia era sempre de amealhar para voltar; mas muitos por lá ficavam, ou morriam sem o conseguir.